A última estrela

Se tem uma coisa que amo são os livros. Fascina-me a ideia de que posso ler o pensamento de alguém, às vezes registrado numa época tão distante, mas que venceu facilmente o espaço que nos separa. Belas ou feias, são as palavras que me unem ao escritor e tornam possível este encontro. São mágicas, têm o poder de perpassar o tempo e como um líquido volátil atingir um número infinito de pessoas. Mais ainda, permitem que eu faça parte, mesmo que por um ínfimo instante, do que alguém é. Livros não são apenas folhas impressas, são uma partícula da essência divina de um ser, a manifestação de inspirações, é o eu que chega de longe, permitindo-me a partilha. E com que prazer e respeito eu faço parte dessa comunhão!

Sou uma mulher um tanto solitária. Nunca me entendi direito em sociedade. Não chego a ser um bicho do mato, mas muitas vezes prefiro a companhia da leitura a de pessoas. Não me importo com os rótulos que me imprimiram, em outras épocas até me feriram, mas agora, na maturidade, não mais. Tenho uma personalidade esquiva, é isto. Demorei a aceitar esta faceta, por anos me boicotei enquanto me auto infligia ao isolamento ou ensaiava voos sociais frustrantes. Até que passei a me aceitar e respeitar minha maneira de ser. Minha casa é meu templo, a solidão minha amiga e os livros meu refúgio. Foi o melhor que consegui e não fico pensando se estou certa ou errada. Até hoje não tenho certeza se é a vida que nos faz ou vice-versa. Melhor pensar que é meio a meio.

Estava há tempos em busca de um exemplar de “Rebecca, a mulher inesquecível”, da escritora inglesa Daphne du Maurier. Eu tinha lido duas vezes mas o que possuía estava caindo aos pedaços, trazido da casa de meus pais já tinha herdado bem danificado. Escrito em 1938, é uma história incrivelmente bela, um misto de romance, drama e mistério. Interessante que a narradora da história, que é a personagem principal, não tem nome, ao passo que Rebecca nunca aparece, é citada o tempo todo sem existir de fato. Um dos melhores livros que já li.

Naquela semana estava atarefada, com muitas provas para corrigir, e só depois de dias é que apanhei o livro na estante e fui folhear. Havia passado no sebo do Laércio e meus olhos brilharam quando ele me mostrou o livro que tinha guardado para mim. Era tarde, estava cansada, mas, sem sono ainda, sentei-me na sala, espichei as pernas no pufe e fui apreciar minha recém aquisição. A capa estampava um bonito desenho do que seria a mansão Manderley onde se passa toda a trama. O livro estava em bom estado, as folhas ainda não amareladas pelo tempo, nenhuma rasgada, edição de 1973. Na página de rosto, uma assinatura em tinta vermelha: Carminha, 1980. Fui passando as folhas aleatoriamente, detendo-me em alguns trechos, relembrando a história, Maxim, Sra. Danvers… Chegando ao meio, encontro um papel dobrado em quatro. Desdobrando-o, percebo que eram duas folhas daquele papel fino que vendiam em blocos. Em uma caligrafia evidentemente feminina, caneta azul escrita fina, levemente inclinada para a direita, observo ser uma carta. Fiquei fascinada com a descoberta. Rapidamente busco no restante do livro mais alguma coisa, mas não havia mais nada. Passo os olhos rapidamente e não encontro nenhuma assinatura nem data. Deixo minha Rebecca de lado e começo a ler.

Lígia Diniz Donega

“Minha querida filha

Nunca imaginei chegar na velhice dessa maneira. Aliás, não pensava na velhice, que isso seria perda de tempo. É pretensão querer saber do inevitável como se pudéssemos controlá-lo. Já ouvi várias palavras associadas ao envelhecimento: sabedoria, respeito, experiência. Com certeza a que menos entendi e não concordo é liberdade. Liberdade de que se minha mente resolveu boicotar-me? O médico explicou muito bem: memórias do passado, por enquanto se mantêm, as do presente não permanecerão. O que fazer com uma coisa que me assola sem que eu nada possa fazer? Tenho medo, Gi. Tenho medo de esquecer quem sou, quem fui. O doutor me recomendou escrever diariamente para exercitar a cabeça. É assim que passarei a existir? Minha história de vida registrada em papéis, minha memória catalogada em arquivos? Não consigo imaginar uma doença que tira os pensamentos. É demais para mim. Retire-se o pensamento de uma pessoa e o que teremos? O nada, aquilo que não se define.”

Paro por um momento sentindo uma emoção inesperada. Eu acabava de ler um pedido de socorro, a tentativa frustrante de uma idosa de entender o que se passava. Que idade teria? Via-se pela gramática que era uma pessoa estudada, com uma certa intelectualidade. Gi de Gisele, Giovana, Gislaine? Com a mente cheia de curiosidade, continuo a leitura.

“Antes que o nada me tome, preciso lhe dizer algumas coisas. Nunca fui boa em palavras faladas. Nesse caso, escrever é melhor. Devia ter te beijado e abraçado muitas e muitas vezes mais. Ter cheirado seu cabelo molhado, acariciado suas bochechas macias, segurado você no colo muito mais. Tudo voa e desaparece. Me perdoa por aquilo que não te dei, filha. Guarde o que te dei, que foi o maior amor que senti em minha vida. Por você e para você eu vivi. Lembra-se da nossa brincadeira na sua infância? Você me perguntava o quanto a amava e cada hora eu comparava com uma coisa diferente. Às vezes falava que meu amor era maior do que a bagunça que você havia feito na sala. Então ria e gargalhava gostoso. Outras horas, meu amor é maior do que o quanto você adora sorvete; ou, é tão imenso quanto uma festa de fogos de artifício. Mas você se encantava, realmente, quando eu dizia te amar na quantidade de estrelas no espaço. E completava: te amo até a última estrela que brilha no céu quando o dia começa. Você me presenteava com o sorriso mais lindo que havia. Às vezes olhava pro alto e perguntava qual seria a última. Eu escolhia, apontava e dizia com toda certeza que era aquela estrela que guardaria por último toda minha paixão. Minha criança, por que fui parando de declarar meu amor enquanto você crescia? Por que fui pensar que isso não te importava mais? Ou foram meus olhos que se acostumaram a olhar para baixo?”

Foto por John-Mark Smith em Pexels.com

Sinto um borbulhar em meu peito. Compro um livro e ganho um depoimento cheio de sentimentos. Como a vida é inesperada! É o encontro, as palavras que me unem a uma pessoa incógnita que me chega de um passado indefinido me presenteando com sua história. Sinto pena dela, sofria muito. Noto que há uma ligeira mudança na caligrafia que passa a ser com outro tipo de caneta, um azul diferente, escrita mais grossa.

“Não passei bem esses dias. Sinto uma enorme perturbação na cabeça, como se a qualquer momento fosse cair de uma corda bamba. Não me entendo. Tudo à minha volta parece estranho, minha casa, eu. Por que não veio hoje? Reli o que escrevi e não me lembro de ter feito isso. Encontrei o bloco por acaso na gaveta da …mas da história da estrela eu me lembro. Queria agora poder fazer um acordo com meu mal. Tire-me todas as lembranças que quiser mas nenhuma que me ligue a minha filha. Para mim assim estaria bom. Eu me contentaria se você pudesse me acompanhar até o fim, Gi. Quem sabe eu não sentisse esse medo que me ronda. Quem sabe até eu me curasse e novamente poderia pegá-la pela mão e passearmos na praça. Que besta eu, isso não tem cura. Cuidado com a bicicleta. Lembra do tombo que levou? Chorou tanto, coitadinha.”

Aqui ela pula três linhas. As letras me parecem mais trêmulas.

“queria muito saber onde está a”

A carta termina abruptamente, sem ponto final. Fico um bom tempo segurando-a, pensando em muitas coisas. Tantas perguntas me açoitavam! A filha, será que morava longe ou estava sempre por perto? Chegou a ler essa carta? Quem a colocou no meio do livro? Mistérios para os quais eu nunca saberia as respostas.

Sinto-me muito mexida com o que li, tanto que levantaram questões sobre mim mesma, precisava por meus sentimentos para fora. Num ímpeto, sento-me diante do computador abrindo o Word. Fico olhando a tela alguns instantes, ao que acabo fechando. Pego um caderno universitário espiral e começo a escrever. Não queria pensar muito nos porquês, usei da emoção e esqueci a razão. Fui preenchendo páginas de pensamentos, declarações de amor, culpa e confissões. Fiquei até perto das três da manhã escrevendo cartas.

De lá para cá tenho alimentado esse hábito, sempre de próprio punho e não sei explicar o porquê disso. Já juntei umas doze. Ainda não resolvi se vou entregá-las. Tem para minha mãe, pai, irmão, até para pessoas que já morreram. Estou me sentindo bem e, principalmente, descobrindo coisas sobre mim que ignorava. É como se eu colocasse minha mãe, por exemplo, sentada diante de mim e falasse coisas que nunca teria coragem ou oportunidade de externá-las. É incrível o mundo que temos guardado dentro de nós!

Tenho um enorme carinho pela senhora sem nome e por sua história. De alguma maneira ela se juntou à minha solidão e me ajuda a escrever as cartas. Fico pensando na progressão da sua doença. Espero que a filha tenha lhe dado todo amparo que precisou. A velhice pode ser cruel, principalmente se for solitária o que, infelizmente, na maioria das vezes é. Eventualmente pego a carta e releio. Continua no mesmo lugar onde a encontrei e acho que deve continuar: entre as páginas de “Rebecca, a mulher inesquecível.”

Lígia Diniz Donega
Leitora assídua e contista

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E-mail: ligiadonega@hotmail.com

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