Desafio (desventuras de um professor)

“A gente sempre acaba se enfiando em alguma pocilga de vez em quando.”, disse um colega bem mais experiente.

Eu havia conseguido um emprego numa escola de bairro, que é como alguns chamam as instituições pequenas, mesmo que fiquem no centro. Bem, alguns também chamam de pocilga.

“Quando é comigo, se não é estimulante, começo a chegar atrasada até me mandarem embora”, dissera uma amiga.

“Primeira semana, segunda semana… tudo normal. Depois eles se acostumam com você, e você também começa a conhecer a coisa como um todo e percebe que o negócio é feio mesmo.”, disse, por sua vez, um cara que estava ao meu lado durante a reunião de planejamento. “Não há nenhuma diferença entre esta escola e as do estado. É só que, aqui, o tráfico só está começando a dominar agora”.

Eu estranhava que as paredes das salas só iam até meia-altura, a partir de onde subiam barras de ferro.

“Sempre que tentam instalar vidros, eles quebram.”

Eu havia feito estágio numa escola muito mal conceituada havia vários anos. Também particular. Durante as aulas alguns alunos LITERALMENTE atiravam carteiras (isto é, madeira maciça e ferro) uns nos outros no fundo da sala. Era o tipo de situação que eu teria de enfrentar quando alguns estudantes conhecessem minha aversão ao autoritarismo.

E as vozes das outras salas com seus quarenta alunos cada e seus professores misturavam-se, fluíam pelo corredor, penetravam a minha própria através das grades e transformavam aquilo tudo num inferno.
Lá me chamavam pelo primeiro nome.

“André, essas notas não fazem sentido.”

A coordenadora estalava a língua em desaprovação, mexendo em papéis, e então voltava a me olhar. Eu precisava dizer alguma coisa.

“Devo ter me confundido.”

Foto por Katerina Holmes em Pexels.com

Tentava dar o meu melhor, mas a motivação tendia a zero. Meu diário de classe tinha mais rasuras que meu caderno do colegial.

Então chegou a Festa Junina. Para ficar claro, as festas juninas são uma oportunidade de as escolas fazerem uma propaganda de suas instalações e de seu comprometimento com a formação e socialização dos alunos, colocando professores para trabalhar geralmente de graça ou, se você tiver sorte, em troca de um pouco de comida. Por isso cheguei propositalmente atrasado.

Havia aqueles joguinhos em barracas e fiquei responsável, com um colega, por um brinquedo em que se soltavam bolinhas numa rampa para que atingissem casinhas com valores diferentes, como uma espécie muito triste de pinball. As prendas, que aprendi que são os prêmios, tinham sido providenciadas por alunos em troca de meio ponto numa matéria que quisessem. Na primeira meia hora, já havíamos repartido as prendas boas entre os professores.

Os colegiais traziam os irmãos de uns cinco anos por insistência das mães e os deixavam lá atirando bolinhas no nosso pinball macabro enquanto aproveitavam para encontrar seus crushes e assistiam, com pena mas também um certo sadismo, o sábado de seus mestres.

Naquela época eu já estava desenvolvendo uma preocupação mínima com a minha saúde, de maneira que sempre escolhia estragá-la com coisas que valessem a pena, como charutos de seis reais, evitando cachorros quentes e refrigerantes de quermesses. A consequência era que minhas fichas de trabalhador iam acabar indo para o lixo a menos que eu encontrasse quentão ou, talvez, uma torta decente. Aqui vai a coisa sobre o quentão: se a pessoa que o faz for legal e tiver consideração pelas tradições do país, vai colocar um pouco de pinga, mesmo que seja uma festa de escola.

Não era o caso.

Deixei meu amigo na barraca e caminhei na direção da saída, fingindo aquela convicção distraída de quem só vai buscar o celular que esqueceu no carro e já volta. Passei por mais barracas de assédio moral e uma com mini-pizzas de calabresa de má procedência e ganhei a rua.

Na esquina havia um bom bar onde fiquei por uma hora e meia para tomar um café com leite e comer um pão na chapa. Não ia demorar mais por compaixão por meu colega. Só que, logo, ele apareceu, junto de um outro e uma garota que lecionava redação.

“Já não tem quase ninguém, então repartimos o que sobrou das prendas.”

“Separou algo para mim?”, perguntei.

“Sim, este pente.”

“Caramba, tinha prenda boa ainda.”

“Pois é.”

Meu amigo ainda me entregou dois bilhetes de correio elegante, acompanhados de Sonhos de Valsa derretidos.

“Foi mal, ficou no meu bolso.”

Um era de uma aluna que era apaixonada por mim e, outro, de uma professora que tinha autoestima bastante baixa. Enfiei no bolso mecanicamente e decidi voltar para ver como a coisa estava.

Depois de duas semanas, entraríamos em férias, mas, por alguma razão, eu acreditava que as merecia antecipadamente. Decidi ir viajar. Então, fui à sala da coordenadora.

“Veja, tenho um trabalho de campo na outra escola, então vou ter de faltar esses últimos três dias.”

Acredite, esse tipo de coisa não é fruto de coragem ou de um espírito ousado, mas sim de falta de estímulo, tédio, senso de justiça, essas coisas. Minha chefe dirigiu-se à secretária, que também estava ali, e ambas concordaram que não havia ninguém para me substituir. Mas como minha decisão já estava tomada, levantei-me e lhes desejei boas férias.

Saí com minha companheira para as serras, no carro emprestado de sua mãe, que era muito mais confiável do que meu Fiat. Mas o interessante é que até o retorno às aulas e mesmo depois dele eu não fui demitido.
Por isso, continuei até o fim do ano. Eu não tinha aqueles cuidados todos de parecer asseado e também não preparava as aulas de maneira sistemática, se é que essa é uma boa palavra. Eu preferia fazer uma incursão mais ou menos profunda no assunto e improvisar na hora. Esses hábitos deviam dar uma impressão de despojamento ou de inconsequência que acabaram atraindo a amizade de alguns alunos e suas confidências.

“Professor, meu namorado está me pressionando mas não quero fazer amor ainda”, disse uma vez uma garota.

“Quanto antes você começar, mais problema vai ter”, foi o que consegui dizer na hora.

Certa vez foi um garoto:

“André, por que não nos deixam colar nas provas?”

“Não é meio óbvio, rapaz?”

“Ah, mas não dá pra viver sem cola. Não dá pra ficar estudando”.

“Como assim? O que você vai fazer da vida então, sem aprender nada?”

“Eu só quero me casar com minha namorada. Já sei fazer troca de óleo e olhar freios. Estou crescendo na oficina.”

Na verdade, parecia um plano ótimo. Eu era um cara formado que não tinha conseguido muita coisa. Aliás, você se impressiona com a frequência com que os jovens estão certos.

Havia esse outro rapaz que ficava desenhando carros num caderno de educação artística, fosse a aula que fosse, incluindo a minha. Eu não me importava. O garoto só parava para, de quando em quando, metodicamente, abrir a mochila, encontrar uma toalha de rosto, assoar o nariz nela e guardá-la de novo. Passou o ano inteiro resfriado.

“Professor, quer que eu desenhe algo para você? Vai valer uma grana em alguns anos.”

“Sim. Quero uma Kombi.”

Só balançou a cabeça, desaprovando, enquanto puxava de volta para dentro o que quer que fosse que se havia instalado dentro de uma das narinas.

Chegaram as provas finais. Escutamos a palestra de um diretor que eu mal conhecia até então, repleta de clichês do mundo corporativo daquele tipo que tenta entusiasmar e não consegue. Entendi que precisávamos fazer um esforço que foi chamado de “operação de guerra” durante a semana de provas, arrumando os estudantes em fileiras distantes, intercalando turmas e fazendo uma cara de mau que eu já sabia que não tinha.

A escola havia se tornado uma piada e não podíamos mais permitir conversas durante os testes.
Cada sala contava com dois professores. Caí com uma colega que havia formado muita casca durante décadas de magistério. Fez o trabalho pesado enquanto eu passava pelas fileiras pensando nos quinze reais a hora que me pagavam ali.

Um aluno mirradinho me perguntou, baixo, com toda a inocência, do fundo de sua carteira:

“Professor, porque estão fazendo isto com a gente? Não vai mais poder colar?”

“Isso, você matou a charada. Vocês colaram demais. Existe um limite para essas coisas. A partir de um ponto, a gente não pode mais fazer vista grossa.”

Dias de prova são os piores, porque o tempo não passa. Terminando aquele período, desci para a sala de professores, que não tinha cadeiras plásticas suficientes para todos os funcionários, além de uma mesa enorme, no meio, que não nos permitia circular. Alguém corrigia trabalhos e um grupo de três professores homens jogava conversa fora num canto. Espremi-me até a garrafa térmica, mas o café havia acabado.

O mais boa pinta dos três contava que estava louco para que o mandassem embora porque tinha o telefone de uma porção de alunas e era só que o precisava para poder “cair matando.”

Fiquei feliz que o ano estivesse no fim. Faltei ao amigo secreto e pedi as contas por Whatsapp.

Bruno Andreoli

Bruno Andreoli
Professor. Envolvido com as Artes e a Escrita há uns vinte anos.
Instagram: @b_andreoli

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