Pus a fita italiana para tocar (sobre perdas)

Pus a fita italiana para tocar. Tinha alguma coisa com a última música que era especial. Era uma sucessão de notas que parecia ter morado dentro de mim por toda a vida.

Mas voltemos uns sete anos.

Não entendi direito quando mamãe, pobre dela, desligou o telefone e, abalada a ponto de perder o escrúpulo, me contou de supetão sobre uma certa doença do vovô.

Mas ela ainda trabalhou, cozinhou e lavou até as férias, quando fomos ficar com ele e vovó.

Havia movimento, havia pressa, havia coisas para resolver. Minha mãe ajudou na casa; meu tio trazia o necessário. Vovó tentava, mas não podia me dar muita atenção. Entendi, em parte. Tentaram me explicar que, dessa vez, não era passeio. Fez o macarrão que vovô gostava, mas ele não conseguia engolir.

Mamãe pedia que eu fosse falar com vovô, que não saía da cama. Eu ia até lá, perguntava uma coisa ou outra. Ele se esforçava, mas logo se cansava e eu tinha de sair. Ia para o quintal decorar a taboada do seis, que tinha sido tarefa para o retorno. A campainha, às vezes, tocava, entrava alguém e então a mesma pessoa saía, casualmente. Parecia tudo bem. Quanto eram mesmo seis vezes sete?

Em alguns dias, voltei para casa sem mamãe, e papai cuidou de mim. Não havia muita conversa. Foram algumas semanas até que ela voltasse; sorriu quando me viu e dizia de vez em quando a palavra “estável”, que eu não conhecia bem.

Foto por RODNAE Productions em Pexels.com

Foi tudo bem no dia em que a professora tomou a tabuada. No entanto, mamãe teve de voltar para cuidar do vovô.

E com mais uma semana papai me contou que ele havia falecido. Ele não sabia a maneira certa de contar, porque ninguém sabe. E eu não entendia praticamente nada daquilo além do fato de que eu gostava muito do vovô e não parecia certo eu não poder estar mais com ele.

Depois de alguns meses, vovó veio ficar conosco, porque, conforme mamãe dizia, estava só e deprimida. Durante o dia me abraçava e pedia para que jogássemos dominó, o que eu fazia com prazer de início, mas que logo tinha de abandonar em favor de bobagens de criança.

Depois vovó decidiu que queria voltar para a própria casa, e, em poucos dias, ouvi a nova notícia de que havia tido um enfarto. Diziam que agora estava junto de vovô e que finalmente estava feliz após um ano de sofrimento.

Amava vovó, e, por isso, chorei. E, um certo dia, senti que já havia superado mais aquilo.

Mas surgiu algo em mim que me deixava muito mal nos fins de tarde. De repente, havia medo, superstição, algum tipo de culpa que eu também não entendia. Tudo estava bem, mas, de uma hora para a outra, vinha um nó na garganta e eu me sentia sozinho, de um jeito irremediável. Não era lá mais tão criança mas ficava evitando de subir para ir dormir.

Logo no dia seguinte, entretanto, encontrava distração com a escola e com minhas brincadeiras e estava tudo bem de novo. Pelo menos até o final da tarde. 

Nesse dia em que ouvi a fita eu já era um rapaz indo prestar vestibular. Na verdade, eu a vinha ouvindo regularmente no meu quarto porque aquela harmonia era demais, uma coisa incrível, e me ajudava quando eu estava apreensivo. Ouvir certas canções era um hábito adquirido naqueles tempos de medo e solidão.

Naquela vez, pus para tocar na sala por acaso. Minha mãe falou então das tantas vezes em que havia colocado aquelas músicas para meu avô quando cuidou dele. “E seu avô dizia, ‘Rô, vai lá virar a fita para mim’.”

E depois de mais quinze anos, tenho esse gosto de ficar só por um tempinho, à noite, quando minha esposa e nosso recém nascido já estão dormindo. É a hora em que vou arranjar algo para comer e, hoje, estou fazendo macarrão. A queda de um garfo me lembrou o jeito estabanado de minha avó. A lista de streaming que escuto baixinho traz, de repente, a música. “Ti voglio, cullare, cullare, posandoti sull’onda del mare, del mare…”. Está tudo tranquilo e vem uma saudade boa, mas preciso me desculpar por alguma coisa. Não sei direito. O bebê faz algum barulhinho, balbucia leve. Não acordou. Minha companheira dorme, cansada.

Deram os oito minutos, volto para escorrer a massa.

Então vem a surpresa.

As palavras surgem, e elas são simples. “Desculpe vovô. Desculpe vovó. Queria ter sido um neto melhor. Queria ter sido o melhor neto do mundo. Mas eu era só uma criança.”

Então me alimento e volto para minha família. Meu filho faz mais um sonzinho.

E, pela primeira vez, eu entendo. 

Bruno Andreoli
Professor. Envolvido com as Artes e a Escrita há uns vinte anos.
Instagram: @b_andreoli

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