Velha é a vovozinha

Lá está ele a me esperar. Conheço-o de vista faz um tempão, mas nunca fomos apresentados. Lembro-me que passava por perto e pensava, “um dia vai ser minha vez.” Não estava ansiosa não, apenas queria esperar a época certa para estarmos frente a frente e deixei para a vida ir me levando cada vez mais para perto dele. Assumi-lo requer autenticidade e desprendimento e isto eu tenho. Agora, eis que chegava o dia, a hora, e lá estava ele a me esperar. Eu sabia que para ele seria algo corriqueiro que fazia todos os dias, o ano inteiro, quanto que para mim era a primeira vez e dela ninguém esquece.

No corredor de laticínios, pensei que o melhor a fazer seria enfrentar com espírito leve, olhá-lo de frente e dizer, “muito prazer em conhecê-lo” ou, “seja bem-vindo à minha vida”. Então vamos lá ver o que me trará de novo aquele que me causa sentimentos antagônicos. Sim, pois por um lado, passar por ele me dá orgulho por ter chegado até aqui, quantos não conseguem e até que cheguei bem, sem nenhuma avaria grave a lamentar. Por outro lado, me faz lembrar, mais vezes do que eu queria, da ampulheta e sua fatídica e infalível areia que escoa rápida. Ver que o compartimento de cima está bem menor que o debaixo me dá angústia. Que desespero em pegar aqueles grãos e mantê-los presos nas mãos! Mas, fazer o que, né?

O tempo é o senhor do universo e tudo tem seu curso natural… lá está ele a me esperar e não mais preciso esperá-lo, tornou-se real e já faz parte da minha vida. Ergo a cabeça para olhá-lo de frente pois não é nenhum bicho papão, estou pronta, mesmo que não estivesse é assim que acontece para todos, somos sempre crianças nos primeiros passos na vida. Aproximo-me, é agora, é agora! Calma, mulher, calma! Alguém me olha, cumprimenta e pergunta, “CPF na nota?” Até agora, nada de anormal. Então vejo que ele é igual aos outros, nada de diferente a não ser sua especificação que o faz ser especial para pessoas especiais. Ei, é isto, sou especial, que palavra mais acertada, bem melhor do que esta outra que inventaram para me definir.

Aliás, não me perguntaram como me sinto e gostaria de ser chamada daqui para frente. Mas entendo, é assim que o sistema funciona. Enfim conheço aquilo que apenas vislumbrava de longe e me perguntava como seria. Agora sei. Não dói e penso que é melhor aceitar pois vejo que é possível. Passo por ele e suspiro profundamente. Por hoje basta. Agora pertenço a ele, não há escapatória. Sempre que aqui vier, vou me dirigir a ele. Preparando-me para ir, num último gesto na saída, viro-me e olho para ele, pensando, “idosa uma ova”. Mas deixa pra lá, o caixa prioritário do supermercado não precisa saber como me sinto e que o termo a me definir depende do meu estado de espírito frente a vida e experiências que acumulei nestes 60 anos vividos, e como encaro o que está por vir.

Considerando a minha liberdade e autonomia que conquistei, o meia zero coroa uma fase digna de ser festejada. Que maravilha ter minhas decisões, escolhas, vontades e sentir-me apta a gerir a própria vida de acordo com meus padrões! Mais ainda, rimar felicidade com liberdade é o prêmio que vem junto com os cabelos grisalhos. Esta descoberta não tem preço. Há que se dizer que concordo com o termo “melhor idade”. Até quando será a melhor, não sei, o futuro a Deus pertence. Uma última coisa, antes idosa e melhor idade do que velha, pois velha é a vovozinha!

Lígia Diniz Donega
Leitora assídua e contista
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