Meu querido diário

            Nada mais belo aos olhos da natureza do que uma menina de 12 anos contemplando o movimento das árvores pela janela de seu quarto, pensando na primeira palavra a escrever em seu diário. Olhando fixamente as folhagens, revê seu dia e suas sensações. A caneta na mão pacientemente espera o comando para o início da conversa. Apenas o vento se faz notar, sussurrando em seus cabelos, enquanto teima em revirar as páginas irrequietas.

            Ela desvia o olhar para o caderno, esboçando um sorriso, parecendo satisfeita com uma ideia. Cabeça baixa, mergulhada em seu mundo, começa a contar os sentimentos ao seu confidente. Como é encantador aos olhos dos adultos essa vivacidade que pulsa e vibra no anseio juvenil! À sua volta não percebe o tempo regendo o vento, as árvores, as folhas, a luz que vai e vem. Ainda não sabe que tudo segue seu ciclo interminável num universo indecifrável que unifica tudo e todos, através de uma linha invisível, tornando-nos uma só coisa. Alheia em sua ingenuidade infantil, a menina ignora que não somos parte da natureza, e sim, nós somos a natureza. Aprenderá que todo ar que expiramos, mistura-se ao meio ambiente e vai fazer parte da respiração de outros seres, conectando-nos a todas as criaturas vivas, passado e futuro; que somos feitos de água, a mesma água que veio do planeta; que somos terra porque tudo que comemos e transformamos, vem dela; que toda energia química armazenada em nós, foi originalmente luz solar. Ar, água, terra e fogo, a interconectividade. Pérolas unidas formando o precioso colar anatomicamente encaixado da vida na Terra. Mas, por enquanto, a menina só quer saber das páginas em branco que a aguardam preenchê-las de uma vida que começa a florescer, semelhante aos galhos de uma árvore quando perde suas folhas e esperam as novas chegarem e cobrirem-na do verde mais vivo que há. Por ora está bom assim.

            Ela para de escrever e dá por encerrada a conversa. Fecha o caderno, guardando seus segredos. O vento, no último minuto ainda tenta atrair sua atenção lançando-lhe um elogio. Frustrado, contenta-se apenas em contemplar, através da vidraça fechada, o reflexo da menina penteando os cabelos. Apanha a mochila e sai. Na calçada, folhas secas seguem suas pegadas rodeando seus pés e pensamentos, enquanto as árvores a observam sumir na luz que encerra a tarde. Caminha em sua leveza, deixando-se ser apenas uma peça na intrincada rede que envolve a todos. Chegará o tempo em que seu diário quedará no fundo de uma gaveta e talvez um dia seja relido por uma mulher que não vê mais o mundo com os mesmos olhos. Com certeza até lá ela já saberá que é uma das pérolas do perfeito colar que nos une. O vento, mesmo que ela não perceba, ainda estará ali murmurando-lhe palavras, tentando tocar seu coração.

Ligia Diniz Donega
Ligia Diniz Donega

Leitora assídua e contista
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